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A exumação do Belvedere

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Espírito do tempo: A saga do Belvedere 1957, desenterrado 50 anos depois de ter sido escolhido como símbolo de uma época

Por Iuri Pitta

Durante algumas horas, a cidade americana de Tulsa virou o centro das atenções de uma legião de interessados que provavelmente jamais havia ouvido falar nela. Quem pôde viajou para lá. Quem não pôde acompanhou pela internet ou viu pela TV a exumação de um Plymouth Belvedere, exatos 50 anos após ser enterrado em uma cápsula do tempo, em 15 de junho de 1957. Meio século depois, sem ter testemunhado como o mundo e os carros mudaram nessas cinco décadas, o cupê rabo-de-peixe voltou à superfície com marcas evidentes dos anos vividos embaixo da terra.

Os organizadores do enterro diziam que a câmara de concreto onde puseram o Belvedere podia resistir "a um ataque nuclear", ameaça tão presente na vida dos americanos de 1957 quanto o aquecimento global no século 21. Mas não contavam com um inimigo menos assustador: as infiltrações. Dois dias antes da exumação, os promotores do evento deste ano levantaram a tampa da câmara e... mais de 1 metro de água ao redor do carro! Mesmo assim, a programação foi mantida. Ao meio-dia do dia 15, uma sextafeira, uma grua retirou o carro do túmulo.

Em 1957, cerca de 200 pessoas viram o enterro. Em 2007, milhares de espectadores e dezenas de jornalistas presenciaram a exumação e aguardaram a hora que a capa que cobria o veículo seria retirada. Às 19h, em uma arena para mais de 7000 pessoas, descobriu- se o resultado da ação do tempo e da água: a ferrugem havia tomado conta do Belvedere.

"Foi uma decepção. Não vou negar que fiquei triste", diz James Bankston, 68 anos, que viu o enterro e a exumação do carro ao lado do melhor amigo, Paul Turney. Naquele sábado quente de 1957, os dois estudantes nem sabiam que um Belvedere seria enterrado. Eles estavam a caminho do cinema quando viram a movimentação em torno do cupê. Chegaram perto da roda direita traseira e escreveram seus nomes na faixa branca do pneu. "Não está legível, mas a marca ainda está lá", afirma James.

O emblema do Belvedere também está lá, preso ao rabo-de-peixe enferrujado. Sob o capô, é possível ver a bateria conectada ao que sobrou do motor V8 de 4,9 litros. Se ainda funcionasse, ele seria acionado pelo restaurador californiano Boyd Coddington, um especialista em hot-rods e apresentador de um programa de TV a cabo.
A equipe de Boyd recuperou parte do cromado do pára-choque dianteiro, mas foi só. A corrosão destruiu a suspensão traseira. Dentro do carro, restaram o volante e as molas dos bancos. Todo o resto, inclusive os objetos da bolsa de uma mulher guardados no porta-luvas, se perdeu.

O cilindro de metal deixado ao lado do carro conseguiu preservar itens como uma bandeira americana com 46 estrelas (hoje são 50), documentos de 1957 e outros produtos da época. No portamalas, salvaram-se algumas latas de cerveja e cinco galões de gasolina. Os moradores de Tulsa pensavam que esse combustível estaria obsoleto em 2007 - previsão que hoje soa quase como alerta.

Roubando a cena
Enterrar um carro foi a forma que Tulsa encontrou para celebrar os 50 anos do estado de Oklahoma e chamar mais atenção que a capital, Oklahoma City, onde estariam o presidente americano, Dwight Eisenhower, e artistas de Hollywood. A estratégia funcionou. Fotografias do enterro foram publicadas em revistas como a semanal Life e voltaram a ilustrar reportagens 50 anos depois, no mundo todo. "Pessoas de vários países vieram ver o carro e conhecer a cidade", diz Debbie Dover, fotografada entre mais duas meninas sobre o capô do automóvel.

Mesmo enferrujado, o Belvedere foi a atração de uma feira de carros antigos no fim de semana após a exumação, ao lado de clássicos como o Chevrolet Bel Air 1957 conversível de Gene McDaniel. Vendo o enterro do banco traseiro desse carro, tudo o que Gene pensava é se estaria vivo meio século depois. Em 2007, aos 70 anos, ele voltou ao local com o Bel Air, o filho Troy e o neto Stuart, jovem de 18 anos responsável pelo website oficial do Belvedere (www.buriedcar.com).

Agora que sabem o que aconteceu com o Belvedere, Stuart e os 382457 habitantes de Tulsa temem por seu futuro. Em 1957, os organizadores fizeram um concurso: quem adivinhasse a população da cidade em 2007 ganharia o Belvedere e uma poupança de 100 dólares (mais de 700 dólares hoje). O palpite vencedor foi dado por Raymond E. Humbertson, um militar que estava de passagem por Tulsa e morreu em 1979 sem deixar filhos.
Seus parentes mais próximos são duas irmãs, Catherine Johnson, 93 anos, e Levada Carney, 87, que vivem no estado de Maryland. "Recebemos algumas ofertas pelo carro, mas nada está decidido. Ele pode inclusive ficar em Tulsa", afirma Robert Carney, sobrinho do vencedor, que diz ter recebido propostas de interessados em restaurar o carro. "Mais frustrante que ver o Belvedere enferrujado seria vê-lo deixar Tulsa ou ser leiloado no eBay", diz Stuart.


ANÁLISE
A gasolina guardada no Belvedere vai ser estudada por pesquisadores da Universidade de Oklahoma. "Vamos determinar a composição da amostra e usá-la como referência", afirma o geólogo Paul Philp.

NASCIDO PARA COMPETIR

Belvedere: estilo à frente

O Belvedere marcou a estréia da Plymouth no mundo dos cupês hardtop (sem coluna central) a preços acessíveis para o mercado americano em 1951. Ele surgiu como concorrente do Chevrolet Bel Air, o pioneiro do segmento, lançado um ano antes, e só ganhou vida própria em 1954, quando deixou de ser uma versão do luxuoso Cranbrook. Em 1955 o Belvedere começou a conquistar um lugar na história, ao inaugurar o forward look (estilo à frente, em tradução livre) de Virgil Exner, designer saído da Studebaker. Em 1957, surgiu o slogan "De repente, é 1960" - adaptado para "De repente, é 2007" em Tulsa. O modelo tornou-se o topo-de-linha da Plymouth até surgir o Fury, em 1959 - que inspirou Stephen King a escrever Christine, história de um carro assombrado que virou filme em 1983. Depois de ficar famoso por vencer corridas da Nascar, nos anos 60, o Belvedere saiu de linha em 1970.



TULSA E OS CARROS
- Em 1951, Tulsa foi a primeira cidade a usar a placa de preferência no trânsito, criada pelo policial Clinton Riggs
- Tulsa é para muitos o berço da Rota 66. Lá, em 1927, foi criada a associação que pressionou o governo dos EUA pela pavimentação de uma rota entre Chicago e Los Angeles
- Apesar disso e de o pai da Rota 66 ser o empresário de Tulsa Cyrus Avery, a cidade não é citada na música Get Your Kicks On Route 66
- No século 20, Tulsa se intitulava a "capital mundial do petróleo", por causa da forte presença de indústrias do setor - muitas hoje estão em Houston (Texas)
- Segundo a imprensa local, Tulsa tinha a segunda maior frota per capita dos EUA em 1957, perdendo só para Los Angeles

OUTRO TESOURO ENTERRADO
A história do Belvedere tem seqüência com data marcada: 17 de janeiro de 2048. Em 1998, Tulsa fez 100 anos e construiu outra cápsula do tempo. O carro escolhido para ser descoberto após 50 anos é um Plymouth Prowler púrpura igual ao da foto, modelo que teve 11702 unidades produzidas entre 1997 e 2002. De tração traseira e estilo hot-rod, levava motor 3.5 V6 de 253 cv. Sem saber o que ocorreria em 2007, Tulsa parece ter evitado os erros de 1957. Ergueu um mausoléu, e não um túmulo debaixo da terra. A câmara recebeu um gás que evita a oxidação de partes metálicas e, no motor, foi usado óleo sintético. Como no Belvedere, a cápsula guarda objetos da época, como um urso de pelúcia, o painel de um caixa eletrônico e um telefone celular.


Confira algumas fotos:

Meninas em 1957, Debbie Dover (centro) e Cheryl Forrest (dir.)...

... voltaram a posar para fotos diante do Belvedere, 50 anos depois.

Frestas na capa de estireno já mostravam que o pior havia acontecido.

Localização de Tulsa.

Restauradores recuperaram parte do cromado do pára-choque dianteiro.

Sob o capô, motor V8 4.9 que produzia 215 cv foi tomado pela corrosão.

Cilindro preservou objetos da época.

Fonte: quatrorodas.com.br









 
 
 
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